A cannabis acompanha a humanidade há pelo menos 10 mil anos. Originária da Ásia Central, ela foi se espalhando pelo mundo ao longo dos séculos, adaptando-se a climas e regiões completamente diferentes. Com o tempo, essa trajetória deu origem a diferentes tipos de cannabis, com características botânicas e químicas distintas. Hoje, essas diferenças têm nome: sativa, indica e ruderalis. Mas o que elas realmente significam, e qual a relevância disso para quem usa cannabis?
O que é a Cannabis sativa?
A cannabis sativa é caracterizada por plantas mais altas, com caule e folhas finas e compridas. No que diz respeito ao perfil de canabinoides da planta, ela costuma apresentar maior teor de THC (em proporções próximas às do CBD).
Para fins medicinais, a linhagem sativa é frequentemente estudada pelo seu perfil rico em THC, que apresenta propriedades analgésicas, antieméticas e anti-inflamatórias. A combinação entre THC e CBD presente nessas plantas também favorece o efeito entourage, fenômeno em que a interação entre os compostos da cannabis potencializa os benefícios terapêuticos de cada um deles.
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O que é a Cannabis indica?
Ela recebe esse nome porque sua origem mais provável são as regiões montanhosas do subcontinente indiano. Botanicamente, as plantas dessa variante costumam ser mais baixas e robustas, com folhas largas e densas.
O perfil de canabinoides da indica tende à predominância do canabidiol (CBD) ou ao equilíbrio entre este e o THC, embora essas proporções possam variar de acordo com as condições de cultivo. Ao contrário do THC, o CBD não produz efeitos psicoativos e tem sido estudado por propriedades ansiolíticas, analgésicas e relaxantes musculares.
Por isso, o uso terapêutico da indica costuma ser associado ao tratamento de dor crônica, insônia, ansiedade e espasmos musculares, especialmente em casos onde o THC não é indicado ou precisa ser usado em doses menores.
O que é a Cannabis ruderalis?
A linhagem ruderalis é originária das regiões frias da Rússia e da Europa Central. É a menor das três, com crescimento rápido e folhas menores e menos ramificadas. Apresenta baixíssimo teor de THC e, em algumas variedades, concentrações moderadas de CBD.
Por esse perfil, a ruderalis tem pouco valor medicinal direto. Sua grande contribuição está nos cruzamentos com outras linhagens, aos quais ela transmite uma característica valiosa: a capacidade de florescer automaticamente, sem depender de mudanças no ciclo de luz.
Esse tipo de cruzamento entre linhagens resulta nas chamadas variedades híbridas, que hoje representam a grande maioria das plantas cultivadas para fins medicinais.
Sativa x indica x ruderalis: principais diferenças
| Sativa | Indica | Ruderalis |
Porte | Alta, caule fino | Baixa, robusta | Pequena |
Folhas | Finas e compridas | Largas e densas | Menores, menos ramificadas |
Canabinoides | Maior teor de THC | Predominância de CBD ou equilíbrio THC/CBD | Baixo THC, CBD moderado |
Uso medicinal | Analgesia, antiemético, anti-inflamatório | Dor crônica, insônia, ansiedade, espasmos | Principalmente cruzamentos |
Origem | Regiões tropicais | Subcontinente indiano | Rússia e Europa Central |
O que são as variedades híbridas de cannabis?
A partir da década de 1980, cultivadores passaram a cruzar sistematicamente as três variantes para combinar as melhores características de cada uma. O objetivo era desenvolver variedades com perfis de canabinoides mais específicos, maior rendimento, floração mais rápida e maior resistência a pragas e climas adversos.
A ruderalis, por exemplo, é uma das mais aproveitadas nesses cruzamentos. Mesmo sem tanto valor medicinal direto, ela floresce por conta própria, pois não depende de alterações no ciclo de luz. Ao ser combinada com sativas ou indicas, essa característica se transfere às variedades híbridas, o que torna o cultivo mais ágil sem abrir mão do perfil de canabinoides desejado. O resultado disso é que plantas sativas ou indicas são cada vez mais raras em sua forma pura.
Assim, o termo mais preciso para classificar as variedades hoje é quimiotipos, que leva em conta o perfil de canabinoides e terpenos de cada planta. É essa lógica, aliás, que orienta a produção dos óleos da APEPI. Para além da variante original, o que define o potencial terapêutico de cada produto é justamente o caráter híbrido que a composição química das plantas apresenta hoje em dia.
Cannabis macho ou fêmea: qual a diferença?
Por trás de todo esse processo de cruzamento está uma distinção fundamental: a cannabis é uma planta dióica, o que significa que existem indivíduos masculinos e femininos. Essa diferença tem implicações diretas tanto para o cultivo quanto para a produção de óleos medicinais.
Nesse contexto, as plantas fêmeas são as mais valorizadas. É nelas que se concentram os tricomas, estruturas microscópicas responsáveis pela produção de canabinoides e terpenos. Quanto mais tricomas, maior a concentração de compostos com potencial terapêutico. Por isso, praticamente todos os extratos e óleos medicinais são produzidos a partir de flores femininas não polinizadas.
Já as plantas macho, por sua vez, produzem pólen e têm papel principalmente reprodutivo. Em cultivos voltados para a produção de óleos, elas costumam ser removidas precocemente. Isso porque, ao polinizar as fêmeas, os machos estimulam a formação de sementes em detrimento das flores, que são justamente onde se concentram os canabinoides e terpenos de maior interesse medicinal.
Por mais que o macho pareça um coadjuvante no cultivo convencional, ele tem um papel fundamental nos programas de melhoramento genético. É por meio do cruzamento entre machos e fêmeas selecionados que se desenvolvem novas variedades, com perfis de canabinoides desenhados para fins específicos. Sem esse processo, a diversidade de plantas disponíveis hoje para a produção de óleos medicinais seria muito menor.
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