Quem corre sabe a sensação. Em algum momento do treino, a dor some, o cansaço recua e uma euforia difícil de explicar toma conta do corpo. Com a corrida de rua em franca expansão no Brasil, cada vez mais pessoas estão descobrindo esse estado por conta própria. Os corredores chamam de runner’s high, o barato do corredor. Enquanto muitos atribuem a sensação às endorfinas, a ciência aponta para uma explicação mais complexa, que envolve o mesmo sistema com o qual a cannabis interage no organismo.
Entenda o que é o barato do corredor, como ele acontece e qual a sua relação com o sistema endocanabinoide. Saiba também como a cannabis pode ajudar quem pratica corrida.
O que é o barato do corredor?
O runner's high é um estado transitório de euforia e bem-estar que alguns corredores experimentam durante ou após o exercício físico. A experiência costuma ser descrita como uma combinação de alegria intensa, redução da ansiedade, inibição da dor e uma sensação de leveza. Não é um fenômeno unânime entre os corredores, mas quem já experimentou reconhece na hora.
Curiosamente, o barato do corredor não decorre exclusivamente da corrida. Ciclismo, natação e outras modalidades aeróbicas também podem desencadeá-lo. O que os estudos apontam é que a duração do esforço importa mais do que a modalidade praticada. Em média, estima-se que o fenômeno se manifeste após aproximadamente 45 minutos de atividade contínua. É a partir desse ponto que substâncias ligadas ao bem-estar atingem seu pico e o praticante começa a sentir o barato da corrida.
Mas quais são exatamente essas substâncias e qual o papel de cada uma no barato do corredor? A ciência tem respostas interessantes.
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O barato da corrida é por causa da endorfina?
Não exatamente. Durante décadas, a ciência atribuiu essa sensação às endorfinas, substâncias com função analgésica e euforizante produzidas pelo cérebro durante o esforço físico. A explicação fazia sentido intuitivo e se popularizou. Hoje, já é possível afirmar que havia um problema com essa hipótese. Com o avanço dos estudos, foi comprovado que as endorfinas têm dificuldade para cruzar a barreira hematoencefálica, uma espécie de filtro natural que protege o sistema nervoso.
Em outras palavras, elas não conseguem chegar ao cérebro em quantidade suficiente para causar os efeitos descritos pelos corredores. Foi essa inconsistência que levou os cientistas a investigarem outras hipóteses e considerar o sistema endocanabinoide como parte da resposta.
O barato do corredor e o sistema endocanabinoide
O sistema endocanabinoide é uma rede de receptores distribuída por todo o organismo, responsável por regular funções como humor, dor, apetite e resposta inflamatória. É ele que interage com os compostos da cannabis eventualmente absorvidos pelo corpo, como o THC ou o CBD, por exemplo.
Durante o exercício físico, o organismo produz suas próprias substâncias para ativar esse sistema, chamadas endocanabinoides. A principal delas é a anandamida, molécula associada ao controle do humor, prazer e bem-estar. Diferente das endorfinas, a anandamida consegue cruzar a barreira hematoencefálica com facilidade e atuar diretamente no sistema nervoso central.
Um estudo conduzido por pesquisadores da Universidade de Heidelberg confirma a hipótese ao mostrar que os níveis de endocanabinoides no sangue aumentam significativamente após exercícios aeróbicos, o que reforça o papel central desse sistema no runner's high.
É essa semelhança estrutural entre os endocanabinoides produzidos pelo corpo e os fitocanabinoides da cannabis, portanto, que explica a conexão entre o barato da corrida e a planta.
A cannabis pode ajudar no esporte?
Vai depender do tipo de uso e do objetivo. No contexto do esporte, os canabinoides têm despertado interesse principalmente por suas propriedades anti-inflamatórias, analgésicas e ansiolíticas. Elas podem ser úteis tanto na recuperação quanto na preparação para o treino.
Não é novidade que corredores lidam frequentemente com dores musculares, inflamações nos joelhos e processos de recuperação pós-treino. Para esses casos, o uso de pomadas à base de CBD surge como uma alternativa prática. Aplicada diretamente nas regiões de maior dor ou tensão muscular, ela permite uma ação localizada e direcionada, o que pode ser especialmente útil para quem busca alívio pontual.
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Os óleos de cannabis também têm despertado interesse no esporte de alta performance. No rugby profissional, por exemplo, pesquisas indicam que 26% dos jogadores já utilizaram CBD, sendo a recuperação muscular o principal motivo citado. A NFL (Liga Nacional de Futebol Americano), por sua vez, vem financiando estudos sobre o uso do composto em casos de concussão cerebral, dada a frequência de lesões neurológicas causadas pela prática do esporte.
Cannabis é doping no esporte?
A Agência Mundial Antidoping (WADA), que regula os esportes olímpicos e competições internacionais, mantém o THC na lista de substâncias proibidas durante competições. Um atleta é reprovado no teste antidoping se a concentração de THC no organismo ultrapassar um limite específico, o que na prática só ocorre em casos de uso recente ou frequente.
Já o CBD foi removido da lista em 2019 e é permitido em qualquer período. Apesar disso, atletas devem ter atenção ao escolher produtos à base de CBD, já que alguns podem conter traços de THC que resultam em teste positivo.
O cenário nas ligas profissionais, no entanto, vem mudando rapidamente. Em dezembro de 2024, a NFL aumentou o limite de THC permitido de 150 para 350 ng/mL e deixou de suspender jogadores por uso da substância, aplicando apenas multas. A NBA (Liga Americana de Basquete) foi além: desde 2023, removeu a cannabis completamente da lista de substâncias proibidas no novo acordo coletivo com os jogadores. Em 2024, a NCAA fez o mesmo para atletas da Divisão I.
O movimento aponta para uma revisão gradual das regras, mas atletas que competem em eventos regulados pela WADA ainda precisam de atenção redobrada, especialmente em relação ao THC.
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